Você contraiu pneumonia esse ano ou conhece alguém que foi acometido pela doença nos últimos meses? O assunto da ascensão da doença no Brasil tornou-se evidente com a internação da atriz Camila Pitanga, de 46 anos, em São Paulo, após sentir contínuo cansaço e ser diagnosticada com a doença.
A recorrência de casos de pneumonia no Brasil e no mundo foi tema de uma reportagem publicada pelo Jornal da USP no início do mês. Segundo o especialista Alberto Cukier essa onda, registrada em países da Europa e nos EUA, relaciona-se com o período de isolamento pela pandemia de coronavírus.

Em novembro de 2023, alguns infectologistas se preocuparam: a Promed, sociedade internacional de doenças infecciosas, informou que hospitais chineses estavam “sobrecarregados com crianças doentes” com uma nova onda de pneumonia bacteriana. Logo mais, países como Holanda, Dinamarca, Reino Unido e Estados Unidos também registraram aumento de casos, especialmente entre crianças. Embora pareça preocupante, a Organização Mundial da Saúde declarou que o aumento de casos associados à bactéria Mycoplasma pneumoniae já era esperado após o fim do período de isolamento da covid-19.
Alberto Cukier, diretor de Serviço da Divisão de Pneumologia do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, explica qual é a relação entre essa nova onda e a pandemia viral de 2019.
O Mycoplasma não é novo

Como explica Cukier, o Mycoplasma pneumoniae é um antígeno já conhecido. Conhecida também como “pneumonia ambulante”, a bactéria circula comumente entre a população humana, que já possui anticorpos capazes de lidar com a infecção antes que ela evolua para um caso mais sério.
Além disso, as diretrizes padrões para o tratamento de pneumonias já incluem um antibiótico capaz de lidar com o microorganismo. Nas palavras do médico “A bactéria Mycoplasma pneumoniae é absolutamente conhecida por todos os médicos que tratam pacientes com pneumonia”.
Por que aumentou?
Os novos casos de infecção estão diretamente relacionados com o período que passamos em isolamento, com a pandemia global de coronavírus. Alberto Cukier conta que, como passamos um tempo sem nos expormos à pneumonia ambulante, não desenvolvemos naturalmente os anticorpos para lidarmos com as novas variantes do antígeno.
“O que está por trás disso é que, no dia a dia em que vivemos, nós ficamos expostos a esses agentes infecciosos e, ao nos expormos, nós adquirimos uma imunidade por conta dessa exposição. Quando nós ficamos vários meses reclusos em casa, esses vírus e bactérias desse tipo do microplasma circulavam e nós não estávamos expostos. Havia essa percepção de que, quando da retomada, nós estaríamos mais desarmados para responder a uma invasão de um desses microrganismos”, explica o pneumologista.
Há risco de uma nova pandemia?
“O risco de uma nova pandemia é zero”, afirma categoricamente o especialista. O Mycoplasma é uma infecção bacteriana conhecida e já existe antibiótico eficiente contra o microorganismo. Além disso, o nível de transmissão não está em níveis alarmantes, segundo ele.
Além disso, hoje em dia as pessoas estão mais preparadas para lidar com surtos de doenças. Aprendemos, a duras custas na pandemia, que devemos utilizar álcool em gel e higienizar as mãos com frequência. Aprendemos também a evitar transmitir infecções para colegas de escola e trabalho, utilizando máscaras e ficando em casa. Os modelos híbrido e home-office também são uma nova realidade de trabalho e contribuem para diminuir a circulação de agentes patogênicos.
Risco no Brasil
Em entrevista ao site Uol, em dezembro de 2023, o especialista Julio Croda, afirmou que as chances de um surto de Mycoplasma pneumoniae chegar ao Brasil são grandes. “Também tivemos a retomada das escolas, com crianças mais suscetíveis, o que nos levou a surtos do vírus sincicial respiratório, por exemplo. Então, tudo indica que podemos ver um aumento de casos do Mycoplasma pneumoniae também”.
De acordo com o especialista, um grande desafio no Brasil, é que não há testagem em massa para identificação desse agente, o que dificulta o tratamento correto em casos graves e o monitoramento de um possível aumento no número de infecções. “Seria interessante, no momento em que há aumento de casos em outros países, a gente testar nos quadros de internação, para monitorar a doença no Brasil e tratar os pacientes mais efetivamente”, disse.
Fonte: Jornal da Usp e Site Uol.
Edição: Jornalista Herison Schorr